Arte Portuguesa no MAC - Movement for Contemporary Art in Portugal

ALBINO MOURA

Ao longo de 45 anos de carreira, Albino Moura tem vindo a ser um constante pesquisador das suas verdades, mantendo-se, no essencial, fiel a si mesmo, na sua poética lúdica referenciavel nos trajectos da infância pela representação da imagem da ternura e da inocência, em que a representação formal ilude o real, transportando-nos numa viagem lírica através do sonho, no amor simples das coisas e do mundo.
Espectáculo de infâncias revisitadas, simulando vivências em que a metafórica e opulenta “boneca” assume alegoricamente o papel de individuo, como se o mundo das pessoas e das coisas permanecesse imutável e alheio a todos os conflitos…

Nas palavras do artista percorremos o seu mundo: -”Nasci num meio muito pobre e de família humilde. No ambiente em que cresci, não havia nada de Arte, mas, como todas sãs crianças, aprendi a fazer bonecos, nem melhores, nem piores que os dos outros miúdos. Não sei o que me atraiu para a Pintura, só sei que cresci com o sonho de ser pintor, e que ainda hoje continuo a sonhar”. É este o mundo do “querer”, de imagens e memórias que Albino Moura transfigura e nos transmite na sua obra e nesta sua exposição, onde como sempre acontece, há um envolvimento simultaneamente terno e doce nas pinturas que figuram a condição do ser, remetendo-nos contudo para influencias anteriores em que podemos fazer notar uma referencia à obra lírico poética de um Cipriano Dourado que se torna uma evidencia conferindo à obra de Albino Moura uma subtil e lúdica sensualidade e beleza à trivialidade constante e constrangedora de um mundo que nos é dado viver.

Surpreendentes são os seus trabalhos, todos criados em gestos de quem procura regenerar as formas da vida, acrescentando-lhes outros valores estéticos e afectivos, sendo a sua obra um pacto de vida onde o encantamento e o amor coexistem.

As suas telas ecoam no olhar e na memória, dum inconsciente esquecido, mas latente em todos nós, como todos os simulacros com que nos confrontamos na infância através de jogos e simulações por onde perpassa um ante projecto de vidas e anseios, retidos porém no inconsciente individual e/ou colectivo dos “habitats”vários… Na nudez simples da sua poética plástica Albino Moura revela-nos o encanto de um homem simples que se denota numa harmonia total do sentido, dos sentidos assim realizados, como se o ser e o sonho se sobrepusessem num trajecto único do saber estar num mundo conturbado, mantendo-se vertical dentro das utopias possíveis pelas quais temos que lutar, sob pena de a nossa condição de ser pensante se deixar submergir por um “inferno” de realidades de um planeta que se autodestrói por outros imperativos que não dominamos.

Na força de ser ele mesmo e não outro, Albino Moura impõe-se pela autenticidade da sua arte sem fronteiras e sem tempo numa reconstrução constante de realidades e afectos ultra humanos que mantêm aberta uma janela sobre um mundo passível de ser por todos nós desejado.

ÁLVARO LOBATO DE FARIA
Director coordenador do MAC

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ANA TRISTANY


Confesiones de una pintora portuguesa

Na minha infância, quando eu era pequenina aquilo de que mais gostava era de me escapulir da sala de aula para o Barracão das Pinturas. E por lá ficava embrenhada, com argila nos cabelos e tintas até aos cotovelos, alheada do tempo e das horas, num fascínio sem fim pelas cores e pelas formas. Fui parar ao local de ensino certo, grandes espaços com jardins deslumbrantes, rodeados pela frondosa mata de Monsanto e que, acima de tudo, privilegiava as artes. Um paraíso, uma melodia que soava perfeita aos meus ouvidos de criança e que terminou drasticamente quando os meus progenitores descobriram um dia que o seu rebento, em plena segunda classe, não sabia ler nem escrever e muito menos fazer contas!



Transferida a meio de uma segunda classe para um colégio de dominicanas de ensino misto até à 4ª classe, foi lá que aprendi a ler e a escrever; teve mesmo que ser. Mas foi também lá que aprendi a evadir-me através dos sonhos. Era tão bom sonhar, não havia muros, não havia leis, nem regras e deveres estabelecidos. No recreio, com os meus amigos à volta, a minha fantasia transbordava de catacumbas com esqueletos, de tesouros escondidos, de esconderijos e de um sem fim de mundos e lugares desconhecidos no tempo e no espaço.

Foi também por esta altura que em casa da minha avó tive o meu encontro em terceiro grau com os livros. A casa da minha avó era um dos lugares mágicos da minha infância onde me faziam sentir especial, única. Havia paz e um silêncio que aprendi a amar. E livros, montes de livros que me abriram portas sem fim para o mundo dos sonhos.
Por volta de 1975 fui parar a um colégio de franciscanos. Depois da revolução de Abril, o colégio tinha feito duas concessões importantes: passar a aceitar raparigas (tinha uma única colega na turma) e substituir o director que usava judiciosamente o poder das reguadas por outro mais comedido, que foi imediatamente alcunhado de “o Bolacha”. Aqui tenho de agradecer à minha mãe a sua obstinação em não me querer num colégio só de raparigas. Isto, aliado ao facto de ser a única rapariga em casa, deu-me um calo extraordinário em lidar com rapazes. De saias, pois não era bonito uma menina andar de calças, aprendi umas vezes a bem e muitas (mas mais divertidas) a mal, a impor-me.

Nesses tempos estava assente que nós tínhamos de aprender, como, quando e onde os professores queriam. Ponto final. Aliás, uma das frases sacramentais da época exemplifica bem esse ponto de vista “Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”. Havia mesmo alguns professores que, com receio de que nas nossas mentes jovens pudessem existir dúvidas, chegavam a especificar que nós é que éramos “o mexilhão”. Anos mais tarde quando comecei a leccionar, ainda tentei usar essa frase como uma piada mas os alunos ficavam a pensar se eu seria uma extraterrestre pelo que tive de actualizar as minhas piadas.

Dos seis anos de educação franciscana ficou-me o gosto por tudo o que é simples, o fortalecer das minhas incertezas, a minha força de vontade em levar avante causas perdidas, o poder ser enganada por todos sem perceber nada, a minha necessidade de ordem e de ouvir o silencio.

Os fins-de-semana e férias eram passados numa quinta da família. Nós éramos, segundo os meus pais, uns privilegiados e uns felizardos pois não precisávamos, como os outros meninos que, coitadinhos, não tinham nenhum sítio para onde ir, de brincar na rua, ir ao cinema, andar em clubes ou escuteiros, etc, etc. A esta quinta devo sem dúvida uma grande parte do que sou. A liberdade de correr pelos campos, o respeito e admiração que tenho pela natureza, o gosto por tudo o que é antigo, a descoberta dos meus desportos favoritos (explorar ruínas e subir às árvores para apanhar fruta), a minha paixão pela genealogia, pelo restauro e claro a minha saga com os musgos do jardim. O jardim era uma maravilha de traça francesa, com cedros que três homens não conseguiam abraçar e buxos que eram considerados pelo seu porte como únicos. Mas aos caminhos cobertos de musgo ninguém ligava. Assim, por volta dos treze anos tomei a meu cargo os ditos musgos. Todos os anos era necessário arrancar uma a uma, as ervas daninhas do musgo, num trabalho metódico e de enorme paciência. Começava sempre pelos caminhos mais escondidos e pouco frequentados pois tinha a sensação de que se começasse pelos principais nunca teria coragem e perseverança para chegar àqueles onde ninguém ia.

A Quinta foi também para mim uma escola de vida e uma aventura permanente, um local onde tudo era possível acontecer. Servia, e serve ainda, como depósito a cães, coelhos, canários, primos, etc., cujos donos ou pais vão de férias e não têm onde os deixar. Foi refúgio de cães abandonados, alunos mongolóides da minha mãe que viviam em barracas e não tinham onde passar férias; velhotes de quem ninguém queria saber; e incontáveis amigas da minha mãe cujos maridos as haviam abandonado temporária ou definitivamente. Enfim, toda uma fauna que fazia com que eu nunca soubesse onde ia dormir a noite seguinte. De tudo isto ficou-me a vontade de querer levar para casa tudo e todos os que estivessem abandonados ou infelizes. Mas também uma má vontade crónica em ceder a minha cama a outros...

Aos catorze anos decidi que queria ser jornalista para me escapar à Matemática e ponto final. Muito embora os esforços conjugados dos meus educadores tivessem dado frutos na área da escrita e da leitura, o mesmo não se podia dizer do campo matemático. Sempre manca e a tropeçar, aquelas abstracções numéricas foram algo que me acompanhou como um pesadelo que parecia não ter fim. Por isso nada mais aliciante do que o jornalismo pensava eu, entre as faíscas dos meus neurónios e vade retro Matemática.

Felizmente, as coisas não são sempre como gostaríamos que fossem e foi aqui que descurei momentaneamente um factor crucial para a minha posterior decisão de seguir Belas Artes: a minha teimosia de jerico. Pois se havia algo de certo na minha vida, era o meu sonho de poder voltar a brincar com as cores, aquelas minhas velhas amigas do Barracão, e dar corpos às fugidias formas que vislumbrava nos mundos por onde a minha fantasia se passeava. Não era com certeza a Matemática que me ia afastar dos meus desígnios! E segui em frente a todo o vapor, sobrevivi e brilhantemente (ironia do destino), às terríveis Matemáticas do Unificado, atingindo o meu objectivo: entrar numa das mais peculiares faculdades deste país, a Escola de Belas Artes.

Escultura foi uma decisão tardia, feita já a meio do curso. A Pintura era demasiado complexa nas Belas Artes, os professores de Pintura eram assustadoramente herméticos, o ambiente das salas de Pintura era asfixiante feito de salas superlotadas e semi-escuras. A Escultura foi uma opção de respeito pela liberdade de criar, salões enormes, solitários e luminosos. Um mundo de tecnologias e materiais fascinantes, a clássica pedra, a madeira quente e perfumada, o brilho e a maleabilidade dos metais, a pureza do gesso, as sensações primitivas de moldar o barro e as possibilidades infinitas dos plásticos. Um mundo irresistivelmente rico em conhecimentos que me fascinou e me deixou recordações inesquecíveis inolvidáveis.

Apesar de ter tentado arrastar o mais possível a minha passagem por esses idílicos lugares (é tão boa a vida de estudante e melhor ainda é a vida de um estudante de arte) acabei mesmo por ter que sair para o mundo real.
Ser professora de artes reúne tudo aquilo que eu sempre esperei duma profissão: o risco do inesperado, o desafio de novas experiências, o convívio, os espaços amplos e acima de tudo a liberdade física de não estar fechada num escritório.

A constituição da família levou-me a dedicar-lhe toda a minha criatividade. Depois foi o exílio por terras mais frias (Canadá) e o absorver de muitas experiências novas e outras formas de encarar a vida. Com o regresso a casa e o fim do esforço despendido nas fraldas e papinhas houve finalmente uma aberta para regressar ao campo artístico. Voltar a pintar foi o meu regresso ao Barracão das Pinturas da minha infância, o meu paraíso perdido e reencontrado.

Criar algo de novo, seja uma sobremesa, uma obra de arte ou um filho é único e irrepetível... e na nossa vida para tudo há um tempo...
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FIGUEIREDO SOBRAL: A PINTURA E A ESCRITA

«A pintura e a escrita» é o título escolhido para esta exposição de pintura de Figueiredo Sobral, no MAC - Movimento Arte Contemporânea, cumprindo um seu velho sonho de aliar a poesia e os seus escritores de cabeceira à sua arte pictórica e escultórica.
Deste modo, nestes 37 quadros povoam ecos de Eça de Queirós , em figuras representativas de uma sociedade de final do século XIX, onde a paixão, o vício e a ociosidade se entrelaçam em obras como A Relíquia, O Crime do Padre Amaro e Os Maias , cujo peso é bem sentido por aqueles que se intitularam a si próprios «Os Vencidos da Vida».

Mas ainda dessa época , o pintor é fascinado por Camilo , na ironia da Queda dum Anjo e, por essa personagem de Calisto Elói, o político provinciano, que vai deixando cair as suas asas brancas à medida da sua ascensão, tal como diria Almeida Garrett no belo poema , com o mesmo nome, que é aqui pintado a espátula e a escárneo.
É igualmente tocado pelo lado romântico de Camilo, em Amor de Perdição, nesse trio trágico-amoroso de Simão-Teresa-Mariana ou pela poesia de Flores sem Fruto de Garrett ou dos Sonetos de Bocage.

Mas é Antero de Quental , o seu companheiro das noites insones, atormentado entre a fé e a descrença num Deus que sonhou e que é corporizado em quadros como «Ignoto Deo», «Na Mão de Deus», «O Crucificado» e «Mater Dolorosa» ou nesse poema contundente e desesperado de Alberto Lacerda, «Deus é uma blasfémia», que o pintor intitula «Carregando a terrível pedra de Sísifo ….Ehh, humanidade!!».

No sentido crítico, mesmo no âmbito do sagrado, estão as suas preocupações sociais que são desmitificadas através da ironia, plasmada em tinta e pincel e ilustrada com poemas de Alexandre O’Neill ou de Manuel Bandeira. Num libelo contra a guerra erguem-se as vozes do poeta medieval João Zorro, ou de Fiama Hasse Pais Brandão.
O seu próprio lirismo de pintor-poeta é assumido em poemas como «A morte de Manolete» e «Histórias com gritos de sevilhanas», encarnando a História Ibérica e ecos de Guernica. Portugal e os seus mitos, D.Sebastião e Marquês de Pombal, ressurgem nas suas telas e na voz de Camões ou na sageza histórica de Latino Coelho. ´
A dimensão filosófica de Umberto Eco ou de João Rui de Sousa é captada na subtileza do relevo e da subversão da forma e da cor.

Erguem-se, num cântico de amor, D. Quixote e Dulcineia, celebrando o sonho e a aventura dos eternos amantes. A beleza da mulher e a sua nudez visualizam-se na beleza cristalina da poesia de Camilo Pessanha ou de Adalberto Alves. Natália Correia e Florbela Espanca sugerem o mistério do amor, corporizado pelo pintor na sua forma surrealizante e barroca de se exprimir.

E, finalmente, numa homenagem à mulher palestina e ao seu povo, Figueiredo Sobral dá vida ao poema de Mahmoud Darwish, (poeta palestino): «Juro!/ Que hei-de fazer um lenço de pestanas/ onde gravarei poemas aos teus olhos»

É esta a mostra que o Mestre nos tem para oferecer, numa fase difícil da sua vida, em que cada vez mais interioriza a sua visão do mundo, isolando-se para se encontrar a sós com a sua arte, num diálogo que só ele entende, como dádiva miraculosa e perene que os deuses lhe ofertaram.

Elsa Rodrigues dos Santos
Lisboa , 9 de Março de 2005

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MAC LISBOA


Movement for Contemporary Art



http://movartecontemporanea.blogspot.com/

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